Churrasco de Domingo

Daniel é grounge. Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains fazem parte do repertório. Sabe aquelas bandas fuleiras de garagem que só fazem sucesso com os amigos? Daniel, além de grounge é o vocalista e loiro e cabeludo e de olhos azuis.

Junto com o Lucas, seu irmão baixista e moreno, espremem as noites até a última garrafa de vinho barato. Vidinha tumultuada. Festivais em palcos de compensado. Bateria Turbo e amplificador Meteoro. Sexo fácil com as roqueirinhas. As brigas de fim-de-noite também são constantes. Lucas, o mais esquentadinho, coleciona hematomas. Mãos esfoladas, olhos roxos, lábios cortados.

Daniel têm uma fã: Cláudia. Uma das poucas que ele ainda não comeu. Cabelos longos e provocantes, cintura fininha, All Star comportado e piercing na buceta, dizem. Ela acompanha todos os shows. Sempre fica atrás das tietes fiasquentas. O que ela não sabe, é que ele a admira, até mesmo a ama. Sentimento que nasceu há alguns anos, quando dividiram a mesma turma escolar.

Subindo no palco, Cláudia lhe entrega um bilhetinho. Tocam muitos covers e algumas músicas de autoria própria. Da apresentação para o camarim enjambrado. Toalhas pretas, bebidas de três reais e as putinhas de sempre. Daniel é agarrado. Come duas meninas. Vinho, sexo e mais vinho... e mais sexo. Tonto, mal consegue acertar o vaso sanitário. Mija os próprios pés. Vasculha os bolsos em busca de mais camisinhas. Um bilhete Te espero no carro após o show.

Calças caindo Tênis desamarrados Sem camiseta Corre como um louco Onde está o carro? Onde está o carro? Vermelho vermelho vermelho Lá, achei. Carro vermelho. Ela não está. Aproxima-se devagar e ofegante. Ela não está. Idiota, idiota! Está tudo girando, tudo se meche, inclusive o carro. No banco traseiro, Cláudia. Piercing à mostra, sendo fodida. Seus gemidos de prazer inflam Daniel de ira. Ao lado do bilhete, no bolso, um canivete. Ele dá um murro no teto e abre o carro Ela sai semi-nua pela porta oposta Pés quentes no alfalto frio Vadia, volta aqui! O companheiro não fugiu, ficou procurando as roupas. Encontrou com elas sete facadas no peito. Estocadas afú, até o osso.

Domingo, meio dia. Cheiro de churrasco. Dor de cabeça. Daniel se levanta. Lava o rosto e as mãos. Vai até a sala e senta-se à mesa. Seu pai está cortando a carne. Sua mãe, vindo da cozinha com os pratos de salada. Seu irmão, o Lucas, não aparecerá para o almoço.

Ônibus Perdido

olhos vermelhos lacrimejantes pelo ônibus que passou táxi perdido atordoado tardio tortuoso copo de água que passarinho quer beber mas os símios não deixam o lenço branco azarar solitário solstício festejado não por ele pois as vísceras do cordeiro estão sobre o altar revelando o futuro que só os cegos veem e vão ao encontro do vão vem ao encontro da van que vai e o deixa aqui caminhão sem freio vai e vai pois volta não há fadada pazadas pesadas de terra molhada ecoa no colchão vermes olhem este homem deitado ao lado da mulher que não está. Não está mais com ele, não está mais ali, não está mais. Um dia esteve com varizes vertigem garagem sacanagem libertinagem depravada gozou escarrou sorriu com a gamela arreganhada onde o caldo da carne a tesouradas escorrem e algemas resolvem no úmido triângulo retângulo onde só a hipotenusa e os catetos fazem companhia aos olhos vermelhos lacrimejantes pelo ônibus que passou

Oubliance

Há mais esquecimento em um texto do que lembranças.

Medalha de Prata

A maior vantagem do cinema sobre a literatura é a pipoca amanteigada.

Manifesto Ovino

.fotografias queimadas por brinquedos de idosas crianças nas aguadas grades dos assentos bancários cromadas solidões que avistam o fogo e as rochas que dissolvem vermelhos deuses gordos outrora defenestrados do Olimpo sangue corrente na calçada calçado caçado por aborígines consumistas comunistas onde buscam alimentos para seus rebentos arrebentados rebeldes nos louros láureos da derrota marrom e do veludo cheirador de pó da multidão que escarra as ordens e aceita de cabaça no grão as vitrines dolorosas insuportáveis diluídas por coca cola cocada e colada das mentes revolucionárias de presidentes municipais que cuecas adentro aplicam nossas reservas ambientais onde a corrupção não é brasileira, mas sim universal. O que temos é a falta de atitude, falta de caras pretas, quiçá, jovens de molotovs em punho. Talvez assim a corrupção possa diminuir e, enfim, daqui a algum tempo, possamos nos orgulhar de vivermos em um país menos devastado por lareiras douradas e fumegantes de verdes ovelhas voadoras que cortam o céu da província indígena no entardecer cinza estomacal cancerígeno cauterizante da carne rasgada a machadadas algodão negro e vazio esfoliante de rostos produzidos em úteros industriais de cidades de marfim voadoras inacessíveis à plebe trabalhadora que grita no azul e financia sogras viajantes em públicos jatos lunares brilhantes sacerdotes assassinos do sonho infantil cultivado no íntimo popular estériL

Haikai

Perdidos nos labirintos
sejam de Deus ou de Borges
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Invernos infinitos

Pesadelo Recorrente

Fotografias são pombos-mensageiros enviados do passado para lembrar o homem de sua pateticidade.

Bala Perdida

Em berço nada esplêndido,
dos oitenta, nasceu
Nos seios anoréxicos
da fome, sorveu
Pelada, a única diversão,
num campinho de chão batido
Polícia contra bandido
Tiroteio e confusão
Antes era só a erva,
quem manda hoje é o crack
O barato agora é pedra

Lenta e certa é a morte
Lá, dinheiro nas cuecas
Aqui, bala perdida pro's de sorte.