Terceira Pessoa

Ela é uma mulher contemporânea. Acorda com preguiça. Toma banhos demorados. Faz chapinha em seus ondulados cabelos castanhos. Bate o ponto as nove, ou nove e meia se o banho for mesmo demorado. A culpa é sempre do trânsito. Atura seu patrão até as cinco. Caminha pelo shopping admirando todas aquelas futilidades e saboreando seu sorvete diário.

– De flocos com cobertura de chocolate! – Ela pede. Sempre.

Chega do serviço. Repete a rotina do banho. Ela sempre o espera com o jantar pronto.
Ele, como quase todos os homens, acorda cedo, antes dela. Não toma café da manhã. Trabalha com imóveis. Gosta de carros vermelhos e não lê um livro desde a universidade. Joga futebol todos os sábados.

– Meus amigos contam comigo! – Argumenta ele.

Ele sai do escritório. Antes de ir pra casa toma duas cervejas, mas fala pra ela que foi só uma.
Levam uma vida normal. Conversam abertamente sobre tudo. Não passam dificuldades financeiras. Compartilham dos mesmos amigos. Fazem sexo quase todas as noites. Embora ela não queira muitas delas. Saem juntos todas as sextas.
O restaurante é um dos melhores da cidade. Todos seus amigos estão presentes. Ela odeia a Cláudia.

– Muito saliente essa bisca! – Exclama ela.
É aniversário dele.
– Qual vamos pedir? – Pergunta ele.
– Estou perdendo o último capítulo da novela! – Sussurra ela.
– O que você disse meu amor?
– Merlot meu bem, prefiro Merlot! – Responde ela bem rápido.

Sábado, oito da noite. Ela prepara o jantar. Ele sai de um motel com seu carro. Ela assiste ao Jornal Nacional. Ele estaciona e se despede de Cláudia. Ela serve seu prato. Ele bebe uma ceva no bar. Ela fita o envelope pardo sobre a mesa. Ele fecha a porta da garagem. Ela termina sua taça de vinho. Ele entra pela porta dos fundos. Ela aumenta o volume.

– Adoro spaghetti! – Diz ele.
– Por isso que fiz! – Responde ela.

Ele sorri. Ela lhe dá dois tiros. Ele sentiu pouca dor. Ela continua assistindo a reprise da novela. Cheiro de sangue a incomoda. Aumenta mais o volume. Vizinhos na calçada cochicham. Mais um disparo alimenta suas falácias.

Catarina desliga a televisão. Pega um copo de água. Olha as crianças no quarto. Dirige-se para a cama e deita ao lado de seu marido.

Um comentário:

Nando disse...

Bóh! Virginia Woolf!

EUHAHUHEUHAUHEUHUAHEHUAHEA

p.s.: Procura o meu poema chamado "bom dia pedro" Tem uma nóia assim.