Notas Vermelhas

Os pais de Marcela são alienígenas. Eles não têm ouvidos nem olhos. Não se sabe o porquê. Simplesmente não possuem aparelhos auditivos. Assim como não têm todos aqueles órgãos responsáveis pela visão. São apáticos ao mundo que os cerca. Muitos momentos ela questionou-se sobre a existência de algo dentro daquelas almôndegas. Ela teve que aprender a viver com isso.

– Eles não têm culpa de ter nascido deste jeito. – Desabafa Marcela com uma amiga.
– Mas existe um tratamento pra isso, não é?
– Sempre foi assim, e vai continuar sendo. – Argumenta ela.

Sofre com a “ausência” dos pais desde a infância. Notas vermelhas nunca existiram para eles. Foram indiferentes com suas medalhas no voleibol. As noites dormidas fora de casa nunca foram reprimidas. Os porres com os amigos tampouco. Algumas vezes, por vergonha, omitiu a existência deles. É mais fácil negar do que explicar. A indiferença com seus planos para o futuro a incomodava. Foram indiferentes com sua aprovação no vestibular também. Triste, mas foram indiferentes até mesmo quando ela engravidou. Não possuem ouvidos nem olhos, mas choraram sua indiferença quando Marcela espalhou o cérebro nos azulejos brancos do banheiro.

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