Tenho um pequeno mercadinho aqui na Restinga. Moro há quinze anos neste bairro. Sou bem quisto por todos. Nunca me incomodei com nenhum pudim nem caloteiro. Trabalho duro horas a fio pra dar o que comer à minha família. Buscar frutas e legumes na Ceasa. Descarregar caminhão de bebidas. Arrumar prateleiras de farinha e açúcar.
O Zé é vagabundo conhecido aqui na vila. Quem vive pelas ruas, homem de bem não é! Nunca vi aquele sujeito trabalhando. A pobre da mulher dele que sustenta o marginal. Passa o dia gastando os dedos na costura. Dizem que ele até mesmo rouba a pobre coitada, não duvido que seja pra comprar drogas. Sempre o vejo com latinha na mão, é mais um que caiu na pedra.
Era tarde, estava pondo em ordem as gôndolas pra fechar o mercadinho. Dia frio de agosto, chuvisco tocado a minuano. A porta tava abaixada até a metade pra proteger da chuva. Fui até o caixa pra fechar as contas do dia. Um homem entrou por debaixo da porta. Engoli meu coração. Meia-calça enfiada no rosto e um oitão apontado pra mim.
- Me passa só o dinheiro do patrão que eu não to de brincadeira!
Comecei a raspar a gaveta. A mão do verme tremia, era vontade de me matar. Peguei as moedas também. Os olhos dele estavam vermelhos, certo que o marginal tava chapado. Tinha tanta droga na cabeça que nem percebeu que aquela meia-calça não esconderia seu rosto. O Zé levou todo o dinheiro do dia. Antes de fugir foi até o freezer e pegou uma latinha de Kuat. Além do meu dinheiro, o filho da puta garantiu o cachimbo pro crack.
Claro que não chamei a policia. Vou arriscar minha vida assim. O Zé anda armado e acompanhado da droga. Apagar um trabalhador não é difícil pra uma pessoa daquelas.
Tempos difíceis estes. Três semana sem emprego. Não consigo uma obrinha sequer. Te digo pra ti, nem sempre foi assim! Quando vim pra cá, por meados dos anos oitenta, Porto Alegre crescia muito e sempre havia uma obra boa pra trabalhá aqui na Tinga. Como sempre tive dinheiro na sexta-feira, não me preocupei em estudá. Ganhava o suficiente virando massa.
Sou homem honesto. Construí minha própria baia aqui na vila. Pra mim, a nega véia e os três bacurí. Simples, mas pelo menos não tamo no tempo. Pobrezinha das criança, passam dificuldade sem reclama muito. Mas a fome ta apertando. Vendê latinha rende uma miséria. O leite da mulhé secô esses dia, e o pequeno virou choro só. Maneira que encontrou para exigí seus direito. Tentei pendurá no armazém do Juca. O sem mãe me negou o fiado pro pão e até pra um litro de leite.
Cheguei detardezinha em casa. Cansado de caminhá. Não consegui serviço nem dinheiro. A mulhé tava nervosa, se botô a me xingá.
– Zé, as criança tão sem almoço, infeliz! O que vamo fazê? Olha os olhinhu fundo dos piá! Precisamo dá um jeito, assim não dá mais! Minhas costura não dão nem pras fralda!
– Pai, compa um guananá pa mim? – Pediu a guriazinha do meio, quando me viu saindo.
O Juca vai entendê.
Um comentário:
E no fim o cara nem tava na lata Oo
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