Sou um viajante do tempo. Acabo de chegar de uma temporada na década de sessenta. Férias estas que duraram exatos oito anos. Tempo suficiente para habituar-me ao modo de vida que tivemos, e ainda deveríamos ter. Por falar nisso, como nossos pais e avós levavam uma vida mais simples, preocupações mais simples. Cresceram sem as tentações do mundo globalizado. Sem a violência do mundo globalizado. Sem as drogas do mundo globalizado.
Drogas, está aí algo que realmente conhecemos hoje. Alguns até podem se esconder por detrás de máscaras socialmente perfeitas, mas o fato é que todos nós as usamos. Eu uso drogas, meu irmão de treze anos usa drogas, minha avó se injeta, e até a síndica de setenta anos também se chapa.
O caso mais grave do uso de drogas que conheci foi o da tia Célia. Por volta dos anos oitenta, quando ela se casou, seu marido comprou um televisor. Não era um aparelho comum, este foi importado do futuro. Ele possuía eletrodos que deviam ser colocados nas têmporas, e acompanhavam cápsulas para se tomar antes de assistir qualquer programa. Com isso minha tia passou a achar que aquelas personagens fossem pessoas reais. Pensava que estavam expondo suas intimidades para o divertimento de todos. Como eram lindas e indefectíveis elas. Pessoas tão perfeitas servem para no mínimo serem copiadas, são exemplos para nossa vida sem graça, pensava ela.
O fascínio que aquele televisor causava em tia Célia era surreal. Ela nunca perdeu um capitulo de novela desde então. Os personagens tomavam café e jantavam na casa dela todos os dias. As gírias, os sotaques e as modas deles eram copiados fielmente por ela. Tia Célia chorou cada chibatada nas negras costas escravas em Sinhá Moça, aderiu o sotaque igual ao da Dona Armênia e até desconfiou de seu marido antes de saber quem foi o verdadeiro assassino de Odete Roitman.
Certa noite fui à casa dela. Estávamos todos nós afundados no sofá em frente à televisão. Ela plugada no aparelho, estática, não piscava e mal respirava, devia ser o afeito das cápsulas. Fui ao banheiro, mais por tédio do que necessidade, e ao retornar a escutei conversando com o filho mais velho.
– Algo que realmente me deixaria feliz, – Comenta tia Célia, melancólica. – era ter uma vida tão movimentada como essas mulheres da novela. Sair todas as noites, jantar fora, ir ao teatro e aos cinemas.
– E por que não fazemos isso amanhã mãe?
– Não tem como filho! Não posso perder a novela.
Dois Corpos, Uma Alma
A família dele acha que se divorciaram. Os amigos dela nunca mais os viram juntos. Pra falar a verdade, nunca mais viram ela. Ela não ama mais ele. Ele a ama loucamente. Cego pelo amor, não nota a frieza dela. Ela permanece enclausurada o dia todo. Não sai nem para fazer as unhas ou ir as compras. Ele trabalha até o meio da tarde. Chegando em casa sempre a encontra na cama. Na mesma posição. Olhos fechados, com aquela pele branquinha e o rosto sereno.
Ele leva a vida normalmente. Acorda cedo. Prepara o próprio café. Garante o sustento da casa vendendo automóveis. Visita seus pais nos finais de semana, sempre sozinho. Não fala nada sobre a esposa, o que desencoraja perguntas indiscretas.
Sexo não a agrada mais, nem um pouco. Faz por obrigação. Ele sempre a beija com a afobação de um adolescente. Peitos pequenos e rígidos. Buceta sempre apertadinha. Seca demais, mas sempre apertadinha. Nada que lubrificantes artificiais não resolvam, pensa ele. Ela nunca reage a seus carinhos. Prefere ficar de olhos fechados. Com aquela pele branquinha e o rosto sereno.
Ele leva a vida normalmente. Acorda cedo. Prepara o próprio café. Garante o sustento da casa vendendo automóveis. Visita seus pais nos finais de semana, sempre sozinho. Não fala nada sobre a esposa, o que desencoraja perguntas indiscretas.
Sexo não a agrada mais, nem um pouco. Faz por obrigação. Ele sempre a beija com a afobação de um adolescente. Peitos pequenos e rígidos. Buceta sempre apertadinha. Seca demais, mas sempre apertadinha. Nada que lubrificantes artificiais não resolvam, pensa ele. Ela nunca reage a seus carinhos. Prefere ficar de olhos fechados. Com aquela pele branquinha e o rosto sereno.
Terceira Pessoa
Ela é uma mulher contemporânea. Acorda com preguiça. Toma banhos demorados. Faz chapinha em seus ondulados cabelos castanhos. Bate o ponto as nove, ou nove e meia se o banho for mesmo demorado. A culpa é sempre do trânsito. Atura seu patrão até as cinco. Caminha pelo shopping admirando todas aquelas futilidades e saboreando seu sorvete diário.
– De flocos com cobertura de chocolate! – Ela pede. Sempre.
Chega do serviço. Repete a rotina do banho. Ela sempre o espera com o jantar pronto.
Ele, como quase todos os homens, acorda cedo, antes dela. Não toma café da manhã. Trabalha com imóveis. Gosta de carros vermelhos e não lê um livro desde a universidade. Joga futebol todos os sábados.
– Meus amigos contam comigo! – Argumenta ele.
Ele sai do escritório. Antes de ir pra casa toma duas cervejas, mas fala pra ela que foi só uma.
Levam uma vida normal. Conversam abertamente sobre tudo. Não passam dificuldades financeiras. Compartilham dos mesmos amigos. Fazem sexo quase todas as noites. Embora ela não queira muitas delas. Saem juntos todas as sextas.
O restaurante é um dos melhores da cidade. Todos seus amigos estão presentes. Ela odeia a Cláudia.
– Muito saliente essa bisca! – Exclama ela.
É aniversário dele.
– Qual vamos pedir? – Pergunta ele.
– Estou perdendo o último capítulo da novela! – Sussurra ela.
– O que você disse meu amor?
– Merlot meu bem, prefiro Merlot! – Responde ela bem rápido.
Sábado, oito da noite. Ela prepara o jantar. Ele sai de um motel com seu carro. Ela assiste ao Jornal Nacional. Ele estaciona e se despede de Cláudia. Ela serve seu prato. Ele bebe uma ceva no bar. Ela fita o envelope pardo sobre a mesa. Ele fecha a porta da garagem. Ela termina sua taça de vinho. Ele entra pela porta dos fundos. Ela aumenta o volume.
– Adoro spaghetti! – Diz ele.
– Por isso que fiz! – Responde ela.
Ele sorri. Ela lhe dá dois tiros. Ele sentiu pouca dor. Ela continua assistindo a reprise da novela. Cheiro de sangue a incomoda. Aumenta mais o volume. Vizinhos na calçada cochicham. Mais um disparo alimenta suas falácias.
Catarina desliga a televisão. Pega um copo de água. Olha as crianças no quarto. Dirige-se para a cama e deita ao lado de seu marido.
– De flocos com cobertura de chocolate! – Ela pede. Sempre.
Chega do serviço. Repete a rotina do banho. Ela sempre o espera com o jantar pronto.
Ele, como quase todos os homens, acorda cedo, antes dela. Não toma café da manhã. Trabalha com imóveis. Gosta de carros vermelhos e não lê um livro desde a universidade. Joga futebol todos os sábados.
– Meus amigos contam comigo! – Argumenta ele.
Ele sai do escritório. Antes de ir pra casa toma duas cervejas, mas fala pra ela que foi só uma.
Levam uma vida normal. Conversam abertamente sobre tudo. Não passam dificuldades financeiras. Compartilham dos mesmos amigos. Fazem sexo quase todas as noites. Embora ela não queira muitas delas. Saem juntos todas as sextas.
O restaurante é um dos melhores da cidade. Todos seus amigos estão presentes. Ela odeia a Cláudia.
– Muito saliente essa bisca! – Exclama ela.
É aniversário dele.
– Qual vamos pedir? – Pergunta ele.
– Estou perdendo o último capítulo da novela! – Sussurra ela.
– O que você disse meu amor?
– Merlot meu bem, prefiro Merlot! – Responde ela bem rápido.
Sábado, oito da noite. Ela prepara o jantar. Ele sai de um motel com seu carro. Ela assiste ao Jornal Nacional. Ele estaciona e se despede de Cláudia. Ela serve seu prato. Ele bebe uma ceva no bar. Ela fita o envelope pardo sobre a mesa. Ele fecha a porta da garagem. Ela termina sua taça de vinho. Ele entra pela porta dos fundos. Ela aumenta o volume.
– Adoro spaghetti! – Diz ele.
– Por isso que fiz! – Responde ela.
Ele sorri. Ela lhe dá dois tiros. Ele sentiu pouca dor. Ela continua assistindo a reprise da novela. Cheiro de sangue a incomoda. Aumenta mais o volume. Vizinhos na calçada cochicham. Mais um disparo alimenta suas falácias.
Catarina desliga a televisão. Pega um copo de água. Olha as crianças no quarto. Dirige-se para a cama e deita ao lado de seu marido.
Notas Vermelhas
Os pais de Marcela são alienígenas. Eles não têm ouvidos nem olhos. Não se sabe o porquê. Simplesmente não possuem aparelhos auditivos. Assim como não têm todos aqueles órgãos responsáveis pela visão. São apáticos ao mundo que os cerca. Muitos momentos ela questionou-se sobre a existência de algo dentro daquelas almôndegas. Ela teve que aprender a viver com isso.
– Eles não têm culpa de ter nascido deste jeito. – Desabafa Marcela com uma amiga.
– Mas existe um tratamento pra isso, não é?
– Sempre foi assim, e vai continuar sendo. – Argumenta ela.
Sofre com a “ausência” dos pais desde a infância. Notas vermelhas nunca existiram para eles. Foram indiferentes com suas medalhas no voleibol. As noites dormidas fora de casa nunca foram reprimidas. Os porres com os amigos tampouco. Algumas vezes, por vergonha, omitiu a existência deles. É mais fácil negar do que explicar. A indiferença com seus planos para o futuro a incomodava. Foram indiferentes com sua aprovação no vestibular também. Triste, mas foram indiferentes até mesmo quando ela engravidou. Não possuem ouvidos nem olhos, mas choraram sua indiferença quando Marcela espalhou o cérebro nos azulejos brancos do banheiro.
– Eles não têm culpa de ter nascido deste jeito. – Desabafa Marcela com uma amiga.
– Mas existe um tratamento pra isso, não é?
– Sempre foi assim, e vai continuar sendo. – Argumenta ela.
Sofre com a “ausência” dos pais desde a infância. Notas vermelhas nunca existiram para eles. Foram indiferentes com suas medalhas no voleibol. As noites dormidas fora de casa nunca foram reprimidas. Os porres com os amigos tampouco. Algumas vezes, por vergonha, omitiu a existência deles. É mais fácil negar do que explicar. A indiferença com seus planos para o futuro a incomodava. Foram indiferentes com sua aprovação no vestibular também. Triste, mas foram indiferentes até mesmo quando ela engravidou. Não possuem ouvidos nem olhos, mas choraram sua indiferença quando Marcela espalhou o cérebro nos azulejos brancos do banheiro.
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