De segunda à sexta, entre as nove horas e as nove e quinze, costumo me aproximar da janela do meu escritório para tentar enganar a vida. Bebo pequenos goles de um café de uma marca tão desprezível quanto seu sabor, muito fraco e muito quente, enquanto uma senhora varre a calçada de sua residência. Não lembro de uma única vez em que, ao olhar pela vidraça, não a vi no seu diário varrer.
Faz uma semana que estou sendo liberado do serviço mais cedo. Meu único filho está internado no hospital. Leucemia, dizem os homens de branco. Eu e minha mulher mal nos vemos. Nada muito diferente de nossa vida como casal. Revezamos para não deixá-lo só.
As noites no hospital são adoráveis. O jantar não atrasa. Não há parentes ligando em horários impróprios. Sempre têm frutas no café da manhã e a hematologista do meu filho é um espetáculo. Cláudia. Admiro o carinho dela. Aqueles ombros lisinhos merecem algum sacrifício. Faço questão de acordar meia hora antes dela vir só pra esperá-la de banho tomado.
Cláudia disse que precisávamos falar em particular. Fiquei excitado. Entrei na sala dela. Imaginei-me chupando seus peitos. “Ele terá apenas mais dois meses de vida”. Não sei ao certo quais foram meus sentimentos na hora, mas não senti vontade de chorar. Suis-je un étranger?
Tenho prestado mais atenção nos frisos mofados das lajes e dos basaltos pelas ruas da cidade ultimamente. Os ponteiros dos relógios já não se movem com a mesma frequência. Divorciei-me faz dois anos. Teria sido a mais tempo se ele não tivesse nascido. Doia ver os olhinhos sem luz afundados na espuma.
Contemplo a garoa suave caindo do lado de fora da janela. Saudades da Cláudia. Tento ignorar as conversas sobre o final da novela e o barulho dos teclados no escritório. Tomo um gole do café fraco-e-quente. Não tenho vontade de me levantar, mas penso se a senhora estaria varrendo sua calçada nesse momento.